segunda-feira, 24 de junho de 2013

ÀS VEZES, O AMOR DÁ NISSO


De repente, no meio do beijo, ele para, olha pra ela e diz:
“Meu amor, você está morta pra mim!”
“Lá vem você com as suas lorotas, Arnaldo.”
“Não é lorota, Bia. Dessa vez, não. Pra mim, você está mesmo morta. Morta e enterrada. Já está até fedendo... Não sente?”
“Sinto. É claro que sinto! Sinto o cheiro dessa privada fedida que você não lava nunca. Nem quando me chama pra vir aqui foder com você.”
“Epa, eu não tenho mau hálito, gatinha!”
Bia estremece. Fica sem saber o que dizer.
Ultimamente, o namorado vinha repetido baboseiras como aquela...
Talvez ele esteja enlouquecendo, pensa ela, num lampejo.
E então sorri. E beija mais, e mais, e mais.
Até ficar com a língua doendo. De verdade.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O SAPO QUE ENGOLIA ESTRELAS


Era uma vez um sapo. Seu nome era Astrogildo.
Astrogildo, como tantos outros sapos, nasceu na beira do rio.
E viveu muito tempo por lá.
Até o dia em que, do nada, resolveu visitar a cidade grande...
Seus pais disseram que era melhor não: era arriscado, perigoso.
Astrogildo apenas sorriu.
E, numa bela manhã ensolarada, pôs uma trouxinha nas costas e o pé na estrada...

Ao chegar à cidade, algo estranho aconteceu...
Astrogildo já não era sapo.
Também não era homem.
Era uma mistura engraçada dos dois – só mesmo vendo para crer!

Entre tantos lugares legais para ir, Astrogildo escolheu ir numa casa lotérica.
Queria apostar na Super-Moeda, o prêmio milionário.
Então enfiou a mão bolso da calça e acabou encontrando uma nota amassada.
Com ela, pagou o jogo, e guardou o bilhete como um pequeno troféu.
Aí saiu caminhando pela cidade.
Andou até se cansar. Depois foi dormir num banco qualquer da praça.

De manhã, Astrogildo correu para a casa lotérica.
Conferiu os números do sorteio... e não deu outra.
O prêmio era dele. Só dele! Todinho dele!

Curiosamente, Astrogildo tinha virado sapo outra vez...

Com o dinheirão, Astrogildo mandou levantar um palácio luxuosíssimo, bem na área nobre da cidade...
A primeira coisa que ele disse para os construtores foi:
– Quero que tenha uma torre tão alta, que encoste nas estrelas!

E assim foi feito!

Castelo pronto, Astrogildo mudou-se definitivamente para lá.
Nem ao menos foi se despedir da sua família...
Nem dos seus antigos amigos lá do brejo.
O rio onde ele havia nascido agora era coisa do passado.
Uma nova vida só estava começando.
Era assim que Astrogildo pensava, com um sorriso que mal cabia na boca...

Durante o dia, Astrogildo ficava de olho nos empregados.
Dava ordens e mais ordens a homens, mulheres – e até crianças!
Enchia a paciência de todos com sua arrogância, com suas vontades absurdas:
– Faça isso!
– Faça aquilo!
– Assim não está bom!
– Faça de novo!

Mas, quando a noite caía, Astrogildo colocava roupas maravilhosas, banhava-se de perfume e ia todo contente para o alto da torre.
O elevador era chiquérrimo, cheio de espelhos.
Levava pouquíssimos segundos para conduzir Astrogildo às alturas!

Lá em cima, Astrogildo matava o tempo olhando as estrelas...
Às vezes, tocava violão. E cantava musiquinhas da moda.
Cantava muito mal, por sinal. Mas se sentia um verdadeiro pop star!

Pois foi assim, entre uma canção e outra, que, certa noite, Astrogildo teve a tal idéia...
Esticando sua língua enorme, agarrou e engoliu uma estrelinha...
Justamente aquela que sempre se emocionava ao vê-lo cantar!

Dali em diante, Astrogildo largou o violão de mão.
Ficava só engolindo estrelas, para desespero das coitadinhas...

Ao final de certo período, viam-se bem menos estrelas no céu.
E o passatempo de Astrogildo prosseguiu, noite após noite...
Nada impedia aquela língua esfomeada!

Como se pode imaginar, a barriga de Astrogildo cresceu demais...
Cresceu de forma assustadora!
Devido aos quilões adquiridos, Astrogildo tomou uma atitude: mandou alargar e reforçar a estrutura da torre. Investiu pesado no elevador.
O bicho não era bobo nem nada.
Queria segurança e comodidade nas suas constantes subidas e descidas...

Dias, meses se passaram...
E Astrogildo sempre comendo estrelas!

O céu, agora, era de uma tristeza que só vendo...
Os moradores da cidade ficavam lamentando o que tinha acontecido.
Ninguém, entretanto, tinha coragem de falar nada contra o sapo...
Afinal de contas, Astrogildo era malvado e muito, muitíssimo poderoso!
As pessoas só falavam às escondidas:
– Qualquer hora dessas ele vai acabar com as estrelas!
– Pois é... E é bem capaz de comer a Lua também!
E todos sofriam juntos sem saber o que fazer diante daquela situação.

Certa noite, como sempre, Astrogildo foi para o topo da torre.
Sua barriga doía, e como doía!
Ele pôs a culpa no cozinheiro; naquela sopa de vaga-lumes do jantar...
Então, para se distrair um pouco, pegou seu violão.
Começou a tocar e a cantar.
Vez por outra interrompia o seu show e engolia uma estrelinha.
Ficou nessa folia até tarde.
Até perceber, irritado, que restava apenas uma estrela no céu...

Astrogildo largou o violão. Sua voz calou-se.
Concentrou toda a sua atenção na estrelinha, que tremia apavorada...
A sua dor de barriga aumentara terrivelmente.
Astrogildo pensou em descer da torre e pedir um remédio ao seu criado-médico.
Mas desistiu, dizendo:
– Não! Agora tenho um importante trabalho para terminar!

Então, desenrolou sua língua gigantesca. E agarrou a última estrela...

Foi o tempo de engolir a estrelinha... e ouviu-se um estrondo espetacular!
Nos bares, nas praças, nas ruas, nas casas – tudo estremeceu!
A população inteira da cidade pensou no fim do mundo...
Mas, passado o susto, verificou-se que as coisas continuavam como antes...
Menos o céu... que estava novamente repleto de estrelas!

As pessoas, confusas, se perguntavam:
– Ué, o que aconteceu? Será que o sapo vomitou tudo, foi isso?!

Na cidade ou no palácio, ninguém ainda sabia da verdade...
E a verdade era uma só:
O barrigão de Astrogildo, cheia até o limite, havia explodido!
Explodiu assim que ele engoliu a estrela derradeira...

Astrogildo nem ao menos teve tempo de se lembrar da sua vidinha de antigamente, lá na beira do rio... Virou poeira no ar!
Coitado, né? Ele agira à toa, sem pensar no que de ruim poderia lhe acontecer...

Minutos depois do acontecido, a cidade inteira estava que era uma festa só!
As pessoas, aos montes, cantavam e dançavam pelas ruas...
Elas lamentavam pelo triste destino do sapo, mas estavam alegres porque tudo voltara a ser como antes.
E toda a gente batia palmas, saudando as estrelas, que, feito princesas, iam desfilando pelo céu afora...
Princesinhas tão faceiras, estrelinhas tão verdadeiras!
Felizes como nunca!
Enchendo de brilho e de beleza a grande noite sobre o mundo!...