quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O SAPO QUE ENGOLIA ESTRELAS


Era uma vez um sapo. Seu nome era Astrogildo.
Astrogildo, como tantos outros sapos, nasceu na beira do rio.
E viveu muito tempo por lá.
Até o dia em que, do nada, resolveu visitar a cidade grande...
Seus pais disseram que era melhor não: era arriscado, perigoso.
Astrogildo apenas sorriu.
E, numa bela manhã ensolarada, pôs uma trouxinha nas costas e o pé na estrada...

Ao chegar à cidade, algo estranho aconteceu...
Astrogildo já não era sapo.
Também não era homem.
Era uma mistura engraçada dos dois – só mesmo vendo para crer!

Entre tantos lugares legais para ir, Astrogildo escolheu ir numa casa lotérica.
Queria apostar na Super-Moeda, o prêmio milionário.
Então enfiou a mão bolso da calça e acabou encontrando uma nota amassada.
Com ela, pagou o jogo, e guardou o bilhete como um pequeno troféu.
Aí saiu caminhando pela cidade.
Andou até se cansar. Depois foi dormir num banco qualquer da praça.

De manhã, Astrogildo correu para a casa lotérica.
Conferiu os números do sorteio... e não deu outra.
O prêmio era dele. Só dele! Todinho dele!

Curiosamente, Astrogildo tinha virado sapo outra vez...

Com o dinheirão, Astrogildo mandou levantar um palácio luxuosíssimo, bem na área nobre da cidade...
A primeira coisa que ele disse para os construtores foi:
– Quero que tenha uma torre tão alta, que encoste nas estrelas!

E assim foi feito!

Castelo pronto, Astrogildo mudou-se definitivamente para lá.
Nem ao menos foi se despedir da sua família...
Nem dos seus antigos amigos lá do brejo.
O rio onde ele havia nascido agora era coisa do passado.
Uma nova vida só estava começando.
Era assim que Astrogildo pensava, com um sorriso que mal cabia na boca...

Durante o dia, Astrogildo ficava de olho nos empregados.
Dava ordens e mais ordens a homens, mulheres – e até crianças!
Enchia a paciência de todos com sua arrogância, com suas vontades absurdas:
– Faça isso!
– Faça aquilo!
– Assim não está bom!
– Faça de novo!

Mas, quando a noite caía, Astrogildo colocava roupas maravilhosas, banhava-se de perfume e ia todo contente para o alto da torre.
O elevador era chiquérrimo, cheio de espelhos.
Levava pouquíssimos segundos para conduzir Astrogildo às alturas!

Lá em cima, Astrogildo matava o tempo olhando as estrelas...
Às vezes, tocava violão. E cantava musiquinhas da moda.
Cantava muito mal, por sinal. Mas se sentia um verdadeiro pop star!

Pois foi assim, entre uma canção e outra, que, certa noite, Astrogildo teve a tal idéia...
Esticando sua língua enorme, agarrou e engoliu uma estrelinha...
Justamente aquela que sempre se emocionava ao vê-lo cantar!

Dali em diante, Astrogildo largou o violão de mão.
Ficava só engolindo estrelas, para desespero das coitadinhas...

Ao final de certo período, viam-se bem menos estrelas no céu.
E o passatempo de Astrogildo prosseguiu, noite após noite...
Nada impedia aquela língua esfomeada!

Como se pode imaginar, a barriga de Astrogildo cresceu demais...
Cresceu de forma assustadora!
Devido aos quilões adquiridos, Astrogildo tomou uma atitude: mandou alargar e reforçar a estrutura da torre. Investiu pesado no elevador.
O bicho não era bobo nem nada.
Queria segurança e comodidade nas suas constantes subidas e descidas...

Dias, meses se passaram...
E Astrogildo sempre comendo estrelas!

O céu, agora, era de uma tristeza que só vendo...
Os moradores da cidade ficavam lamentando o que tinha acontecido.
Ninguém, entretanto, tinha coragem de falar nada contra o sapo...
Afinal de contas, Astrogildo era malvado e muito, muitíssimo poderoso!
As pessoas só falavam às escondidas:
– Qualquer hora dessas ele vai acabar com as estrelas!
– Pois é... E é bem capaz de comer a Lua também!
E todos sofriam juntos sem saber o que fazer diante daquela situação.

Certa noite, como sempre, Astrogildo foi para o topo da torre.
Sua barriga doía, e como doía!
Ele pôs a culpa no cozinheiro; naquela sopa de vaga-lumes do jantar...
Então, para se distrair um pouco, pegou seu violão.
Começou a tocar e a cantar.
Vez por outra interrompia o seu show e engolia uma estrelinha.
Ficou nessa folia até tarde.
Até perceber, irritado, que restava apenas uma estrela no céu...

Astrogildo largou o violão. Sua voz calou-se.
Concentrou toda a sua atenção na estrelinha, que tremia apavorada...
A sua dor de barriga aumentara terrivelmente.
Astrogildo pensou em descer da torre e pedir um remédio ao seu criado-médico.
Mas desistiu, dizendo:
– Não! Agora tenho um importante trabalho para terminar!

Então, desenrolou sua língua gigantesca. E agarrou a última estrela...

Foi o tempo de engolir a estrelinha... e ouviu-se um estrondo espetacular!
Nos bares, nas praças, nas ruas, nas casas – tudo estremeceu!
A população inteira da cidade pensou no fim do mundo...
Mas, passado o susto, verificou-se que as coisas continuavam como antes...
Menos o céu... que estava novamente repleto de estrelas!

As pessoas, confusas, se perguntavam:
– Ué, o que aconteceu? Será que o sapo vomitou tudo, foi isso?!

Na cidade ou no palácio, ninguém ainda sabia da verdade...
E a verdade era uma só:
O barrigão de Astrogildo, cheia até o limite, havia explodido!
Explodiu assim que ele engoliu a estrela derradeira...

Astrogildo nem ao menos teve tempo de se lembrar da sua vidinha de antigamente, lá na beira do rio... Virou poeira no ar!
Coitado, né? Ele agira à toa, sem pensar no que de ruim poderia lhe acontecer...

Minutos depois do acontecido, a cidade inteira estava que era uma festa só!
As pessoas, aos montes, cantavam e dançavam pelas ruas...
Elas lamentavam pelo triste destino do sapo, mas estavam alegres porque tudo voltara a ser como antes.
E toda a gente batia palmas, saudando as estrelas, que, feito princesas, iam desfilando pelo céu afora...
Princesinhas tão faceiras, estrelinhas tão verdadeiras!
Felizes como nunca!
Enchendo de brilho e de beleza a grande noite sobre o mundo!...


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

TERROR NA ALCOVA


Ele entrou de repente no meu quarto usando uma máscara branca e segurando um facão enorme na mão direita.
Entrou com tudo e disse algo parecido com:
 – Eu sou o Jason!
Surpreso, larguei sobre a cama o romancinho do vestibular que eu insistia em ler – entre um cochilo e outro.
– Jason? Que Jason? O que faz aqui? Quem é você?
Ele grunhiu:    
– Sou o assassino da Sexta-Feira 13!
– Humm... E você veio aqui pra me matar, certo?
Ele grunhiu de novo e ergueu o facão ameaçadoramente, a modo que ia partir minha cabeça no meio.
Mas ficou só no gesto. E grunhiu outra vez.
Eu falei:
– Guarda esse facão, Jason. Alguém pode se ferir!
Aí sorri:
– Quer se deitar um pouquinho aqui comigo?
Ouvi só grunhidos em resposta.
– O gato comeu sua linguinha, foi?
Grunhidos, vários grunhidos...
– Vamos, Jason, decida: quer deitar ou não quer?
Ele finalmente baixou o facão.
– Quero...
– Tá bem. Venha.
Ele se aproximou.
– Espere, Jason! É melhor você tomar um banho antes. E, claro, se livrar dessa sua roupa aí...
(Se é que eu podia chamar de “roupa” aqueles molambos fedorentos que ele estava usando, né?)
Jason grunhiu, mas permaneceu imóvel.
– O banheiro é aí atrás de você. Quando terminar, eu te arranjo o que vestir. Agora, pro banho, baby!
Ele entrou no banheiro batendo a porta com estrondo.
Logo escutei o chuáááá da água caindo.
Minha tia enfiou a cara na porta do quarto:
– O que foi isso?
– O quê, Tia?
– Ouvi um barulho aqui.
– Barulho?
– Sim, um barulhão dos demônios. Escutei lá do meu quarto!
– Fui eu, Tia. Bati a porta do banheiro sem querer...
Estranhei um detalhe: no banheiro agora reinava um silêncio de túmulo. Ainda bem, senão minha Tia podia ter desconfiado de alguma coisa.
– Volte a dormir, Tia. Tá tudo bem.
– Boa noite, meu filho.
– Boa noite, Tia.
Quando ela fechou a porta, eu corri lá e passei a chave. Foi a primeira vez na vida que fiz isso. Antes, a porta do meu quarto ficava sempre aberta. Por isso mesmo que aquele monstro estava ali dentro, agora.
Voltei pra cama e peguei o livro interrompido. Tentei me concentrar, mas não houve jeito.
O chuáááá do chuveiro havia recomeçado.
O trinco da porta do quarto girou.
– O que foi, Tia? Fechei a porta... Tô no banho.
– Nada, meu filho. Só queria te lembrar que amanhã cedo você tem que me levar pro hospital, pros exames.
– Amanhã é sábado, Tia. Os exames são só na segunda.
– É verdade. Segunda, dia 16... Que cabeça a minha!
Ela tossiu e saiu arrastando os chinelos pelo corredor.
Silêncio sepulcral no banheiro.
Chamei:
– Jason!
Nada.
Chamei de novo. E de novo.
Que diabos ele estava fazendo? Se masturbando? Cagando?
Ouvi o som da descarga, e Jason apareceu...
Levemente molhado.
Mas completamente nu – exceto pela máscara branca.
Me levantei e peguei no armário uma camisa e uma bermuda. Entreguei a ele.
A roupa ficou muito justa, tive que me controlar pra não rir.
Falei:
– Agora você pode vir se deitar, Jason!
Ele grunhiu, olhando pras próprias mãos:
– Cadê o meu facão?
– Você entrou com ele no banheiro, lembra?
Tive a ligeira impressão de que ele sorriu sob a máscara, mas acho que foi só impressão mesmo.
Chamei:
– Vem, deita logo aqui comigo!
Ele respondeu:
– Não sem o meu facão!
– Pois vai buscar ele, ora!
E baixinho, completei:
– Idiota...
Jason deu um giro rápido, e entrou no banheiro.
Voltou vestido com os trapos dele e o facão na mão.
Grunhiu:
– Eu vou te matar!
Aquilo me doeu.
– Matar, é? É assim que você me agradece a gentileza de te receber? É assim, é?
Ele elevou o facão.
Comecei a chorar. Afoguei minha cara no travesseiro e fiquei soluçando feito um garotinho a quem roubaram a vovó, o desenho preferido – e também o pirulito.
Me arrepiei todo ao sentir o peso da mão na minha nuca...
Jason havia sentado na beira da cama, e me olhava de pertinho:
– Não chore, por favor, não chore!
Limpei as lágrimas e, instintivamente, toquei o braço dele.
Jason se levantou, num pulo. Parecia até que tinha levado um choque.
– Quê que foi, Jason?
Dessa vez ele não grunhiu – sua voz era límpida como água na fonte:
– Sujei a cama toda!
De fato, havia uma imensa mancha preta e gosmenta onde ele tinha sentado...
Detesto sujeira, mas relevei:
– É só trocar de lençol, meu querido!
E, já morrendo de tesão, resolvi apelar:
– Vem, meu docinho de coco!
Jason passou a mão na máscara. Pensei que fosse tirar ela, mas ele fez um gesto vago com a mão e começou a gaguejar:
– A-inda há pou-co vo-cê me cha-mou de i-diota... O que é i-diota?
Fiquei com a cara no chão:
– Bobagem, Jason... Falei só de brincadeira...
Ele empinou o facão:
– Res-ponde! O que é i-diota?
Aturdido, peguei o meu santo paizinho-dos-burros na mesa de cabeceira, abri no “i” e li a definição da palavra:
Adjetivo. Que ou quem não tem inteligência ou bom senso; tolo; estúpido...
Jason, furioso, me arrancou o dicionário e jogou ele contra a parede.
E veio pra cima de mim – literalmente.
O peso dele, mais o fedor das suas roupas, estavam me sufocando.
Ele tentou me beijar na boca. Senti o contato frio da máscara.
– Sai de cima de mim, Jason!
Ele me encarou:
– Não quer mais?
– Não!
– Por quê?
– Por que não, Jason!
– Mas...
Empurrei ele pro lado, e foi a minha vez de grunhir:
– Idiota! Vai me matar logo com esse facãozão aí, ou vamos ficar a noite toda nesse trololó?
Jason ficou de pé. Seu corpo todo tremia.
Pôs uma mão na cabeça.
Andou pra lá, pra cá, pra lá, pra cá.
Depois parou na minha frente e, com força, começou a coçar suas “bolas”; parecia mesmo que ia arrancar as coitadas!
Coçou até não poder mais, e então deixou cair... a máscara.
Eu pude ver o rosto dele – desfigurado, triste e faminto.
Também vi o facão se levantar, e, em transe, gritei o mais alto que pude!...

...

Bom... A lâmina teria brilhado diante dos meus olhos, se não estivesse tão enferrujada.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A ÚLTIMA FLOR



I

As mãos peludas e enrijecidas prendem o enorme crucifixo sobre o peito, e em cada quina da mesa as velas se consomem preguiçosamente diante do olhar silencioso da assistência. A esposa chora a um canto, amparada pela filha única, Bianquinha. A menina, de nove anos, fita o falecido e – ainda que não esteja chorando também – amarga uma dor tão sofrida quanto à de sua mãe.
Mas a tristeza ali é geral:
Seja na pequena sala abarrotada de mulheres e crianças, ou lá no alpendre onde os homens fumam e se coçam, ou, ainda, na cozinha onde as comadres aprontam mais algumas garrafas de café – é grande e profunda a comoção...

II

Parece até mentira, mas o homem estirado na mesa é ninguém menos que Zé Limoeiro – um dos cabras mais brigões que aquele pedaço de chão já vira, e um dos cidadãos mais queridos e admirados pela gente dali e de muitas outras cidadezinhas pelo sertão afora...
Não abane a cabeça, leitor – o desconchavo se justifica: Zé podia ter as suas faltas (quem não tem?), mas ele carregava consigo uma grande virtude: só mexia com quem mexia com ele. No seu natural, era manso como um cordeiro. Bom pai, bom marido, bom amigo dos seus amigos e respeitador dos seus inimigos. Mas implicasse com ele, ou com os de sua estima – e o vaqueiro virava um leão! E sabe como é, né? Já que por ali não havia polícia nem nada, ele acabava servindo, vez por outra, de excelente escudo de proteção para algum companheiro ultrajado...

III

Certa feita – era uma manhã de domingo, Zé fora até a venda de seu Ambrósio tomar a sua pinguinha habitual e trocar dois dedos de prosa –, por pouco ele Zé não deu cabo de um branquelo espigado que se meteu a besta com ele. O nojento – que ia tocando meia dúzia de burros carregados de farinha, sabe-se lá para onde! – parou ali na bodega só para tomar um trago. Mas, nem bem entrou, já foi logo soltando das suas: chutou para o lado um tamborete, e deu aquela cusparada quase nos pés de Joaquim Milonga. O pobre homem, ainda não de todo embriagado, disse ocê é muito maleducado, viu, seu moço? O sujeito escancarou um sorriso falhado e falou achou ruim dá um jeito, vovô! E, se encostando muito à vontade no balcão, mandou botar meio copo de cana “da boa”. 
Seu Ambrósio olhou para Zé Limoeiro – que, acariciando o seu copo ali na mesinha, mal se continha diante daquela palhaçada! – e pôs a cachaça do abusado forasteiro. O bicho bebeu de uma só lapada e lascou outra cuspida – dessa vez acertando em cheio os pés de Joaquim Milonga.
Foi o tempo de o cuspe atingir os pés do velho e Zé Limoeiro agarrar o sujeito pelo pescoço, encostando-o na parede. Seu moleque, esbravejou, ocê respeite os mais velhos! E, afrouxando um pouco as mãos, disse pague a sua conta e siga sua viagem – senão é aqui mesmo que ocê vai ficar enterrado!
Com certa dificuldade, o sujeito puxou uma nota amassada do bolso e a estendeu a seu Ambrósio. Zé Limoeiro, largando-o com desprezo, voltou então para o seu canto – e até as moscas se calaram, tal foi o peso do silêncio que desabou ali dentro.
O homem recebeu o troco e saiu da mercearia sem olhar para ninguém; mas, dois segundos, depois retornou com uma peixeira na mão. Cuidado, Zé! gritou o bodegueiro. Zé quase não teve tempo de se defender. A faca passou raspando na sua barriga – ainda chegou a cortar um pedaço da bonita camisa xadrez que Francisca, sua esposa (uma modista de mão cheia!) tinha acabado de fazer para ele...
Está visto que Zé não ia deixar aquela afronta assim barato: voou em cima do branquelo, tomou-lhe a faca e encostou a danada na cara dele. Tá querendo morrer, desgraçado? perguntou entre os dentes; e, como o estranho desse uma terceira cuspida que lhe passou raspando a orelha, o Zé ficou doido e disse a tua hora chegou, condenado! E, com certeza, teria cometido uma loucura – se Bianquinha não lhe agarra pelas costas, gritando por favor, por favor, solta ele, meu pai!
A menina e a mulher tinham vindo correndo, ao serem avisadas por Curió, o filho do dono da ferraria em frente à bodega de seu Ambrósio – onde num instantinho foi juntando uma interminável multidão de curiosos.  Atendendo aos apelos da menina, Zé largou o homem e disse vou falar pela derradeira vez: ocê chispe ligeiro daqui ou não respondo por mim!
Tremelicando feito vara verde, o branquelo se levantou e sumiu rapidinho com o seu magote de burros, como se estivesse fugindo da figura do tinhoso... Joaquim Milonga – debochado – virou o restinho de cachaça do seu copo e gargalhou dizendo esse aí nunca mais aparece por aqui! É mesmo! concordou seu Ambrósio. E os dois gargalharam juntos.
Zé Limoeiro, abraçado à filha, disse o filho d’égua estragou minha camisa nova! A mulher respondeu eu dou jeito nisso aí, homem de Deus! E, aproveitando que estava ali, ela entrou em visita à esposa do bodegueiro – sua prima e membro dedicada do grupo de oração Guerreiras da Fé, do qual Francisca era a presidenta. Bianquinha a acompanhou, e tudo ficou bem; nem que fosse por enquanto – pois é certo que esta não foi a primeira e estava longe de ser a última estripulia em que Zé Limoeiro, direta ou indiretamente, se meteria ao longo da sua vida...


IV

Pau, pedra, faca – e até mesmo tiro de espingarda (felizmente só de raspão!) –, Zé enfrentou de tudo um pouco em seus quase “quareeeenta verãos”, como ele próprio dizia, ao se referir à idade que pretendia comemorar com uma baita festa. Não foi, no entanto, numa briga que ele acabou os seus dias. Que nada!... O grande Zé Limoeiro – para decepção de três ou quatro desafetos mais enraivados – morreu ao cair do jumento em que montava numa animada corrida de jegues típica do vilarejo – e à qual já vencera duas vezes. No meio do percurso, sem mais nem menos, o Zé se estatelou no chão. Quando acudiram o pobre – ele já estava morto. Tinha quebrado o pescoço!

V

Agora o cabra, o cidadão – o Zé querido e admirado, apesar do sobrenome azedo! –, agora ele segue acompanhado por uma enorme procissão que se espreme no estreito caminho de terra vermelha. O cemiteriozinho mal comporta tantos viventes, tantas lágrimas, tanto converseiro... O padre Leonel precisa pedir silêncio repetidas vezes, enquanto faz a encomendação do corpo. Tem uma hora que ele se irrita de verdade e grita se vocês não se calarem, eu vou ter que expulsar alguns daqui – igualzinho Jesus fez com os vendilhões no Templo! Todos sabem que o padre não está de brincadeira, e de repente o falatório cessa – e então fica parecendo que ali só tem mesmo gente morta...

VI

Junto com a primeira pá de terra, Bianquinha, que está abraçada à mãe – as duas se desfazendo em lágrimas! –, atira uma rosa vermelha sobre o caixão do pai. Diante desse gesto sensível da menina, uma velhinha – comovida ao extremo! – fala em voz alta e tremida vá em paz, Zé, e fique sabendo que ocê foi a flor mais bonita e mais perfumada do nosso jardim!
O velho Joaquim Milonga, como sempre cheio da jeribita – mas igualmente abençoado para ver e ouvir coisas que à maioria passavam despercebidas! –, franze as sobrancelhas grisalhas, apalermado: Diacho, será que Zé Limoeiro, brabo do jeito que era, ia gostar de um comentário desses, todo floridinho assim?
Ele pensa, pesa, analisa a questão – e não chega a uma resposta certeira... Então, roído pela dúvida (mas bem menos do que pelo álcool!), sorri balançando a cabeça de pouco cabelo e quase nenhum juízo. E, decidido, acha melhor esquecer o elogio escroto de Dona Candinha – e chorar mais um bocadinho pelo grande amigo e defensor que acaba de perder...





sábado, 13 de outubro de 2012

DESCOBERTA

Eu não sabia. Juro que não sabia! Até Narciso jogar tudo na minha cara... Foi numa noite chuvosa, de muito relâmpago e trovão. Ele chegou mais tarde que de costume. Tinha enchido a cara. Era raro, raríssimo ele fazer isso. Acho que, depois de quinze anos de casados, era a terceira ou quarta vez que acontecia. Eu me levantei ao ouvi-lo chegar. Acendi a luz da sala, pois ele tateava inutilmente no escuro. Sussurrei: “Você andou bebendo, meu amor...” Narciso debochou: “Não, não! Estou chegando da missa lá na igreja. É isso!” Eu me aproximei dele e o peguei carinhosamente pelo braço: “Venha, querido, você precisa de um banho.” Ele me deu um safanão tão forte que eu me estatelei no chão. Aí gritou: “Ora, me deixe em paz!” Não acreditei que fosse meu marido. Parecia outra pessoa; fiquei assustada. Me levantei chorando... Narciso voltou à carga: “E quer saber de uma coisa? Não sei como tive a coragem de me casar com você!” Sem conseguir conter o choro, indaguei: “Por que está dizendo isso, meu amor?... O que está acontecendo?... Me diga, pelo amor de Deus!...” Ele soltou uma gargalhada: “Porque você é feia demais, mulher! Será que você não se toca, não se vê? Hem?” Assim dizendo, despencou sobre o sofá e adormeceu profundamente. No dia seguinte, ele acordou como se nada tivesse acontecido... Carinhoso como sempre. O homem da minha vida – o meu bom e velho Narciso. Eu não perguntei nada. Mas não havia mesmo o que perguntar: eu tinha passado a noite inteira diante do espelho, e constatara o quanto eu... realmente era feia. Feia demais. Feiíssima. Uma bruxa horrorosa, com um só dente na boca e uma verruga enorme na ponta do queixo...
E, desde então, vivo aqui me martelando: como pude ficar cega durante tanto, tanto tempo?!?

sábado, 6 de outubro de 2012

CAMINHOS PERIGOSOS

Quando Raimundo avistou a casa, as sombras da noite já haviam começado a se derramar sobre o mundo... O pobre homem caminhara o dia inteiro sob o sol escaldante da caatinga, sozinho, por estradinhas ora de barro vermelho, ora de finíssima areia branca; estava, pois, quase morto de cansaço e fadiga. Por isso, deu graças a Deus quando avistou aquela casinha perdida no meio daquele deserto, e tratou de apressar o passo para chegar lá, antes que a noite caísse de vez.
 Enquanto caminhava, observava, admirado, a grande quantidade de morcegos que esvoaçavam para lá e para cá, alguns passando bem rente a ele. Raimundo nunca tinha visto tanto morcego junto! Aquilo lhe pareceu coisa de mau agouro, e, apesar de ser um homem de bastante coragem, não deixou de sentir um ligeiro arrepio na espinha...
Então, para se distrair, começou a assobiar uma cançãozinha aprendida com o pai, no tempo em que ele, Raimundo, era apenas era um menininho inocente, que sonhava em um dia ir embora para o sudeste, ganhar bastante dinheiro por lá, e voltar milionário para matar a fome daquela gente pobre do sertão, que tanto precisava de ajuda!
Era justamente nesse seu sonho grandioso que Raimundo pensava, enquanto caminhava, assobiando... A canção misturava-se ao barulho do pedregulho, que estalava sob os seus chinelos carcomidos, e perdia-se para além da vegetação seca e retorcida, para além daqueles serrotes que mais pareciam montanhas-russas da morte, até diluir-se na enorme imensidão da noite...

...

Quando parou diante da casa, desvaneceu-se do coração de Raimundo toda e qualquer esperança de que ali pudesse residir alguém... A casa não passava de uma tapera velha, com o barro da taipa caindo em muitos lugares; a porta e a janela da frente haviam sido destruídas pelo cupim, deixando entrever o negrume que reinava no interior do casebre...
Pelo menos tem um teto, pensou Raimundo, e é disso que mais estou precisando nesse momento. Está bom demais! Vou pernoitar aqui mesmo e amanhã cedo sigo viagem...
E, sem mais delongas, entrou na choupana. Ficou um instante imóvel, para acostumar seus olhos à penumbra. Percebeu então que o casebre era composto por um único cômodo, e que estava vazio, exceto pelo que parecia serem cinco ou seis garrafas de vidro espalhadas num dos cantos... Nada mais!
Com um suspiro de alívio, Raimundo depôs no chão a cabaça d’água e o saco de estopa que carregava nas costas. Ali dentro do saco ia o seu tesouro, o grande motivo daquela viagem sem fim que ele empreendera há quase três dias...
Amanhã, tornou ele a pensar, amanhã tudo vai ser diferente. Quero dar esta alegria para os meus filhos, para a minha mulher, coitados, tão distantes agora... Mas, deixe estar! A nossa salvação está bem pertinho, já posso até sentir o cheiro da danada. Amanhã, com certeza, tudo estará diferente!
E, sentando-se ao lado do saco de estopa, chegou a dizer em voz alta:
– Pelo menos um sonho eu tinha que realizar nessa vida, né?... Pelo menos um!
E, assim dizendo, o viajante sorriu de peito aberto. Chegou mesmo a gargalhar, como há tempos não fazia. Estava confiante no futuro. O tempo de privações e tristezas finalmente estava chegando ao fim, e era isso o que importava, de verdade.
Num gesto mecânico, tirou o chapéu da cabeça e olhou através da porta. A noite caíra de vez. Os morcegos horrendos haviam dado lugar a milhões de estrelinhas cintilantes...
O céu nunca esteve tão bonito como hoje, pensou Raimundo. Nunca, nunca mesmo!
         Ele ficou alguns minutos apreciando as estrelas, totalmente embevecido. Depois meteu a mão no bolso, retirou o pacote de fumo, e, guiando-se apenas pelo tato, fez o seu cigarro. Quando riscou o fósforo, a chama mostrou um rosto precocemente envelhecido, barba e cabelos por fazer, com vários fios grisalhos... Havia, no entanto, algo diferente ali: os olhos, outrora opacos, agora irradiavam um brilho especial, um brilho que certamente não era apenas o reflexo do brilho das estrelinhas lá no céu...
Acabado o cigarro, Raimundo pegou a cabaça, bebeu dois bons goles d’água e estirou-se no chão; logo estava ferrado no sono...

...

 Ao se deitar, Raimundo não percebe que alguém se aproximara sorrateiramente da janela, e agora está olhando fixamente para dentro do casebre...
O estranho ser lá fora está deveras faminto... Sua aparência, em frangalhos, é de alguém que acabou de levantar da sepultura. Um morto-vivo, uma terrível assombração!  
A criatura chega a gemer, sentindo o cheiro da carne fresca de Raimundo...
E então, instintivamente, ela caminha para a entrada da choupana...

...

Raimundo desperta com a dor lancinante da mordida no ombro... Tenta se levantar, mas a criatura, dotada de uma força descomunal, imobiliza-o, enquanto aplica outras mordidas violentas no corpo do viajante.
Em desespero, Raimundo se lembra da faca na cintura. Com esforço sobre-humano, consegue puxá-la e espeta o zumbi na altura do peito. Enlouquecida, a visagem aplica-lhe uma mordida que arranca parte da orelha esquerda. Outra mordida o fere mortalmente no pescoço...
Em transe, Raimundo pensa na mulher, nos filhos, no saco ali ao lado e, reunindo suas últimas forças, empurra a fera de cima de si. Em segundos fica de pé, e, furioso, desce o sarrafo sobre o vulto caído ali no chão, cobrindo-o de facadas, até fazê-lo em pedaços...
Findo o massacre, Raimundo sente o corpo desfalecer... Então desaba no meio daquela carne putrefata, que, de certa forma, lhe amortece a queda e serve de travesseiro para um sono profundo e completamente sem sonhos...

...

Quando Raimundo acordou, o dia vinha clareando.
Sentou-se, esfregando os olhos.
O seu corpo todo doía, parecia que havia levado uma surra.
Mas sorriu ao avistar o saco de estopa.
– Meu tesouro! – disse ele.
Pôs-se de pé, ajeitou o saco e a cabaça d’água nas costas, o chapéu na cabeça e saiu do casebre.
Lá fora, lançou um olhar ao redor. Apenas aquela paisagem agreste, tão comum aos seus olhos de sertanejo calejado, de homem que é antes de tudo um forte.
Ao lado do casebre, avistou, com pesar, um monte de terra com uma cruz tosca feita de gravetos enfiada em cima.
A terra parecia ter sido remexida recentemente... Com certeza tinha sido obra de algum peba, famoso comedor de defunto daquelas paragens, ou de qualquer outro bichinho do mato.
O viajante benzeu-se, pensando em quem poderia estar enterrado ali...
Depois olhou para o nascente.
O sol, lá na frente, parecia uma gigantesca moeda de ouro.
Raimundo sorriu mais uma vez.
E, decidido, marchou a passos largos, larguíssimos, naquela direção...