Incrível, coube direitinho!
Daí
levo a mala para o carro – é apenas uma mala com rodinhas, não é mesmo? – e partimos noite
adentro.
A
viagem dura cerca de duas horas; só paro na estrada para abastecer e comer
alguma coisa – e, lá pelas onze e meia, estaciono no local.
A
noite está linda. A lua cheia se reflete nas águas calmas do lago – e eu solto
uma praga por não ter me lembrado de trazer uma garrafa de vodca.
Desço
do carro, caminho até a beira do lago, tiro o casaco, estendo-o no chão e me
deito sobre ele, de barriga para cima – as mãos entrelaçadas no peito.
Sempre
gostei de ficar assim – para desespero da minha Tia.
Ainda
me lembro do nosso primeiro embate, logo depois que – desgraçadamente – fui
morar com ela:
–
Descruze as mãos, Érica.
–
Por quê?
–
Porque faz mal.
–
Que mal faz?
–
É de mau agouro, chama a morte…
–
Isso é bobagem!
E,
galhofando, me estiquei no sofá:
–
Olha, Tia, agora sou uma finada!
Ela
fez o sinal da cruz e levantou-se, irritada.
Soltei
uma gargalhada – ao mesmo tempo em que uma propaganda gratuita e dos infernos
entrava no ar, interrompendo a programação normal da TV, que
já era uma bosta.
Naquela
mesma noite, tive um sonho…
Era
este o lago, do jeitinho que ele está agora – com estas águas tranquilas e banhadas
pelo luar.
Tia
estava sentada ao meu lado.
Curiosamente,
eu não conseguia ver direito o rosto dela – ele parecia um daqueles incontáveis
borrões no meu caderno de poesias.
A
coisa toda se repetiria, vezes sem conta; um sonho bobo e – quem sabe – indecifrável…
Num
pulo rápido, sento-me no casaco e busco no bolso um cigarro; está um frio de
doer – e preciso me aquecer um pouco.
Depois,
jogo a bituca no lago, vou até o carro – e abro o porta-malas.
Retiro
a mala e a arrasto até a beira do lago. Abro-a, correndo o zíper com espantosa
delicadeza.
–
Que tal, Tia? A noite está do seu agrado? A lua? O lago também?
Ela
sorri:
–
Está tudo perfeito, querida!
Sorrimos
juntas – e eu acendo outro cigarro.
Ofereço
à minha Tia. Ela recusa.
–
Isto dá câncer! – diz.
–
Sim, e o que não dá?
Tia
não responde.
–
Ei, não durma, Tia! Qual foi o combinado?
Referia-me
ao combinado do meu sonho recorrente, que continuava assim:
O
lago, o lago. Por toda parte o lago… “Um dia, a gente vai entrar e nadar neste
lago, não é, Tia?” “Vamos, sim, querida.” “Combinado, então?” “Combinado.”
“Olhe lá, hem, Tia… Sabe mesmo nadar?” “Não… Mas você me ensina, não ensina?”
“O que disse?” “Ai, eu vou ficar tão feliz!” “O que disse?” “Érica, estou me
afogando! Socorro!” “O que disse?”
Nesse
ponto, eu sempre acordava, o coração palpitando!…
Curioso:
estas últimas palavras me chegavam distantes, desconexas – um sopro, um eco
trazido pelo vento…
Então,
sem conseguir dormir, eu pensava na cara borrada da minha Tia.
E,
às vezes, conseguia rabiscar um poema.
Mas,
agora, não – seu rosto não é um borrão; pelo contrário, está bem nítido!
As outras partes
também.
–
Sua vaca! – grito.
Mas
peço mil desculpas. Você não deve xingar ninguém de vaca; nem mesmo se for sua
Tia.
De
fato, os cigarros me esquentam o corpo. Então me dispo e entro na água.
Nado
por uns vinte ou trinta minutos – feliz, sem receio, sem medo.
Então
saio do lago.
De
repente, o pio de uma coruja irrompe das sombras da vegetação no entorno.
Deito-me
ao lado da mala. Nuazinha.
Tia
continua ferrada no sono…
Ainda
bem, senão ia me chamar de ingrata, pervertida – o diabo.
A
coruja para de piar.
O
silêncio, agora, é completo; uma chatice.
Penso
em acender mais um cigarro – o terceiro.
Só
penso.
Então
me levanto, vou novamente até o carro e fecho o porta-malas.
Depois,
volto para a beira do lago, cato as minhas roupas pelo chão e digo:
–
Olha lá, hem, Tia… Sabe mesmo nadar? Não tem medo de coruja? Não quer mesmo um
cigarro?
Tia
abre os olhos.
–
Adeus! – diz ela, e torna a fechá-los.
Fico
imóvel por um instante, antes de partir.
Quando
chegar em casa, ligo para o Pistola e faço as pazes com ele. Talvez o convide
para dormir comigo esta noite – ou o pouco que restar dela.
Eu
e ele. Ninguém mais para atrapalhar.
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