quarta-feira, 8 de julho de 2026

POR TODO LADO O LAGO

            Incrível, coube direitinho!

Daí levo a mala para o carro – é apenas uma mala com rodinhas, não é mesmo?  – e partimos noite adentro.

A viagem dura cerca de duas horas; só paro na estrada para abastecer e comer alguma coisa – e, lá pelas onze e meia, estaciono no local.

A noite está linda. A lua cheia se reflete nas águas calmas do lago – e eu solto uma praga por não ter me lembrado de trazer uma garrafa de vodca.

Desço do carro, caminho até a beira do lago, tiro o casaco, estendo-o no chão e me deito sobre ele, de barriga para cima – as mãos entrelaçadas no peito.

Sempre gostei de ficar assim – para desespero da minha Tia.

Ainda me lembro do nosso primeiro embate, logo depois que – desgraçadamente – fui morar com ela:

– Descruze as mãos, Érica.

– Por quê?

– Porque faz mal.

– Que mal faz?

– É de mau agouro, chama a morte…

– Isso é bobagem!

E, galhofando, me estiquei no sofá:

– Olha, Tia, agora sou uma finada!

Ela fez o sinal da cruz e levantou-se, irritada.

Soltei uma gargalhada  – ao mesmo tempo em que uma propaganda gratuita e dos infernos entrava no ar, interrompendo a programação normal da TV, que já era uma bosta.

Naquela mesma noite, tive um sonho…

Era este o lago, do jeitinho que ele está agora – com estas águas tranquilas e banhadas pelo luar.

Tia estava sentada ao meu lado.

Curiosamente, eu não conseguia ver direito o rosto dela – ele parecia um daqueles incontáveis borrões no meu caderno de poesias.

A coisa toda se repetiria, vezes sem conta; um sonho bobo e – quem sabe – indecifrável…

Num pulo rápido, sento-me no casaco e busco no bolso um cigarro; está um frio de doer – e preciso me aquecer um pouco.

Depois, jogo a bituca no lago, vou até o carro – e abro o porta-malas.

Retiro a mala e a arrasto até a beira do lago. Abro-a, correndo o zíper com espantosa delicadeza.

– Que tal, Tia? A noite está do seu agrado? A lua? O lago também?

Ela sorri:

– Está tudo perfeito, querida!

Sorrimos juntas – e eu acendo outro cigarro.

Ofereço à minha Tia. Ela recusa.

– Isto dá câncer! – diz.

– Sim, e o que não dá?

Tia não responde.

– Ei, não durma, Tia! Qual foi o combinado?

Referia-me ao combinado do meu sonho recorrente, que continuava assim:

 

O lago, o lago. Por toda parte o lago… “Um dia, a gente vai entrar e nadar neste lago, não é, Tia?” “Vamos, sim, querida.” “Combinado, então?” “Combinado.” “Olhe lá, hem, Tia… Sabe mesmo nadar?” “Não… Mas você me ensina, não ensina?” “O que disse?” “Ai, eu vou ficar tão feliz!” “O que disse?” “Érica, estou me afogando! Socorro!” “O que disse?”

 

Nesse ponto, eu sempre acordava, o coração palpitando!…

Curioso: estas últimas palavras me chegavam distantes, desconexas – um sopro, um eco trazido pelo vento…

Então, sem conseguir dormir, eu pensava na cara borrada da minha Tia.

E, às vezes, conseguia rabiscar um poema.

Mas, agora, não – seu rosto não é um borrão; pelo contrário, está bem nítido!

As outras partes também.

– Sua vaca! – grito.

Mas peço mil desculpas. Você não deve xingar ninguém de vaca; nem mesmo se for sua Tia.

De fato, os cigarros me esquentam o corpo. Então me dispo e entro na água.

Nado por uns vinte ou trinta minutos – feliz, sem receio, sem medo.

Então saio do lago.

De repente, o pio de uma coruja irrompe das sombras da vegetação no entorno.

Deito-me ao lado da mala. Nuazinha.

Tia continua ferrada no sono…

Ainda bem, senão ia me chamar de ingrata, pervertida – o diabo.

A coruja para de piar.

O silêncio, agora, é completo; uma chatice.

Penso em acender mais um cigarro – o terceiro.

Só penso.

Então me levanto, vou novamente até o carro e fecho o porta-malas.

Depois, volto para a beira do lago, cato as minhas roupas pelo chão e digo:

– Olha lá, hem, Tia… Sabe mesmo nadar? Não tem medo de coruja? Não quer mesmo um cigarro?

Tia abre os olhos.

– Adeus! – diz ela, e torna a fechá-los.

Fico imóvel por um instante, antes de partir.

Quando chegar em casa, ligo para o Pistola e faço as pazes com ele. Talvez o convide para dormir comigo esta noite – ou o pouco que restar dela.

Eu e ele. Ninguém mais para atrapalhar.

 

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