quarta-feira, 21 de abril de 2010

O MISTÉRIO DA PORTA

O cartaz, na verdade, é simplesmente uma folha de papel ofício deitada e manuscrita com letras maiúsculas e desenxabidas:

PRECISA-SE DE UM CONTO.
É URGENTE!
PAGA-SE O QUE FOR DE DIREITO...

Surpresa. Aguçamento.
Duas da tarde. O sol tinindo. A rua deserta... Devo ir embora?
Mas estou faminto e cadê tostão... Toco a campainha. Três vezes. O sujeito que atende (terno preto e óculos escuros) e a cara do Tommy Lee Jones; já o bigodinho é da Adriana Calcanhotto – se ela tivesse bigode.
“Vim pelo anúncio...”
“Ah! Pensei que fosse pela Rainha da Inglaterra... Venha comigo!”
Pasmo, já entro num elevador.
O bicho, veloz, não sei se sobe ou se desce.
Aí, de repente, para com um sacolejão!
Susto baita... Vixe!
O estranho não disfarça um risinho de deboche:
“Calma, isso é normal. Me acompanhe!”
Agora uma sala vazia. Um breve corredor. Outra sala, esta toda mobiliada. Outro corredor, este longo e sem qualquer saída lateral.
Ao final do corredor, uma porta – creio que de nuvem...
O homem tira seus óculos escuros; me encara:
“Ente aí. Seja cuidadoso! Eu sou Filho da Arte. Exijo autenticidade. O lado mais verdadeiro de cada um. Boa sorte!”
Ele torna a pôr os óculos, escarra na parede e pega o caminho de volta.
Eu respiro fundo e mergulho no mistério daquela porta... E me vejo numa espécie de galpão – enorme, fechado, iluminadíssimo. Ali, cerca de 90 homens. Nenhum percebe minha chegada?
Um “alegre” se aproxima balangando:
“Olá, meu nome é Peter D. Davis. O seu é...?”
Digo um nome falso, não sei por quê:
“Félix da Silva.”
“Olha, Félix, naquele baú – tá vendo? – tem papel e caneta. E não esqueça: meu nome é Peter... Bye!
Só nesse momento me dou conta de que os homens estão todos escrevendo – uns em pé, outros sentados em girassóis de Van Gogh, outros acocorados; há uns poucos no telhado, pendurados como morcegos...
Pego folha e caneta no baú.
Uma confortável poltrona-do-papai se materializa bem na minha frente!
Ora, tomo assento...
Daí a pouco, adentra um frangote de uns 14, 15 anos. Boné ao contrário e tênis horrorosos. Claro. Sua presença é ignorada.
Vou até ele:
“Ei, naquele baú tem papel e caneta!”
“O quê?”
“Papel e caneta, seu burro! Naquele baú!”
“...”
Volto para o meu canto. Para o me conto.
A caneta veleja. As palavras não se negam. Escrevo com grande excitação!
Penso:
“Sou o contista MÁXIMO do Brasil, talvez até do mundo inteiro!”

... MAS, QUE VOZERIO DESGRAÇADO É ESSE NA MINHA CABEÇA PROCLAMANDO QUE AQUELE DALTON DE CURITIBA É IMBATÍVEL, Ó DEUS???...

2 comentários:

Hélio Sena disse...

Este conto foi selecionado para compor a obra "Os melhores contos de 2009", da Câmara Brasileira de Jovens Escritores!

Hélio Sena disse...

Opiniões dos internautas sobre o conto...

"Viajei no seu conto e estive no mesmo lugar que vc esteve...Gostei do mistério.Parabéns!"
João dos Santo Martins (O melhor da web)

"NOTA DEZ PARA ESTE CONTO!"
Gazela (O melhor da web)

"COM A RESPIRAÇÃO JÁ BEM CURTA, SINTO CHEGAR FINAL ALÉM DAQUELA PORTA TÃO MISTERIOSA E, DESCUBRO SEU MUNDO SUSPENSO EM SEUS SONHOS POÉTICOS.
ERA POR FIM UM GRANDE CONTISTA NARRANDO COM SABEDORIA SUA FARTA IMAGINAÇÃO, POETA.
MUITO BOM SEU CONTO. BEIJOS!"
Goretti Albuquerque (O melhor da web)

"Um conto interessante, bem escrito."
Luciene Lima Prado (O melhor da web)

"Adorei! Olha quantos de nós no finalzinho do seu texto."
Gracielma de Oliveira (Beco dos poetas)

"Gostei do conto.
Achei, se vc me dá a licença de comentar,
a narrativa um pouco confusa para o leitor.
Não sou editora, simplesmente leitora.
Um abraço."
Sumaia (Favas contadas)