sexta-feira, 23 de abril de 2010

TRIBUTO PROFANO

Tremendo que nem vara verde, Clécio foi correndo contar a Pedro a triste notícia...
“Não pode ser, cara...!”
Infelizmente era verdade – Tok estava morto... Um carro o pegara na ciclovia; alguém tinha visto o assassino fugir sem prestar socorro, o filho da puta!

...


Morto...
Ele vivia dizendo: Nascer foi a melhor coisa que já me aconteceu!
E agora – morto...

...

Um enterro simples, simples demais. A mãe e a irmã choraram o tempo todo; (o céu chuviscou...)
Na condição de melhores amigos de Tok, Pedro e Clécio (por sua vez) jamais conseguiriam disfarçar sua dor... O trio havia sido excelentes companheiros; mulherengos e cachaceiros que só vendo!

...

Pois logo depois do enterro, Clécio e Pedro buscam refúgio num barzinho à-toa.
Cai a noite...
– Parece mentira que ele se foi, não é, Pedro?
Ficaram bebendo e conversando. Davam risadas. Riam das maluquices de Tok, o inesquecível; as horas co-riam...
E agora e agora???

...

A noite esfriou um bocado...
No bar, restam 3 fregueses, apenas: Pedro, Clécio – e uma figura atenta e silenciosa na penumbra dos fundos...
O dono do bar dormita ao som de Acolá É Onde Canta O Sabiá...

...

Num ímpeto, Pedro se levanta e diz:
– Vem, Clécio, vamos fazer uma homenagem pro Tok!
– Que homenagem, Pedro?
O outro explica o que tem em mente.
E o outro arregala os olhos:
– Não sei, não, Pedro... Será que isso é certo?
– Se é certo, eu não sei; mas que o irmãozinho Tok vai gostar, posso garantir!
Nascer foi a melhor coisa...
– Bom, então eu topo. Em nome da nossa amizade...
– Isso mesmo, meu velho: em nome da nossa amizade!
... que já me aconteceu!

...

Saem do barzinho – os capacetes esquecidos debaixo lá da mesa...

(Eu sou Pedro...
Eu sou Clécio...
Eu...???)


...

Numa esquina, 2 garotas espreitavam...
Os rapazes estacionam.
NEGOCIAM.
As moças – a princípio hesitantes – topam por 20 a mais, cada uma.
E o grupo então segue, impávido e retumbante, para o – cemitério!

...

“Clécio hic acho que acordamos as almas hic com o barulho das motos hic!”

...

Com certa dificuldade, os 4 pulam o velho portão de ferro...
Aí localizam a cova de Antoniel Gaspar da Silva, vulgo Tok...
E nada, nada os impedirá de transarem feito loucos ali na terra fresca da sepultura – embora o vento tivesse começado a soprar estranhamente morno e a lua gorda no céu parecesse constrangida diante de quadro tão bizarro!!!

Um comentário:

Hélio Sena disse...

Conto publicado no livro "Contos Premiados - 2009", da CBJE!